segunda-feira, 18 de abril de 2011

Queijadas de Pereira





"E ao sétimo dia descansou"... Isto é o que supostamente também eu ia fazer ontem, já que os Domingos são agora dados a essas coisas de acordar mais tarde, ficar preguiçosamente por casa e cultivar o ócio. Mas não! O sino tocou a rebate, bem longe na Vila de Pereira e eu cheia de brio, respondi prontamente à chamada. Sacudi os restos de uma gripe chata e lá fui com a família a reboque, dar o meu modesto contributo para a XVII festa da queijada.
Na mala do carro o farnel para o piquenique, que Domingos solarengos dedicados à doçaria conventual pedem repastos al fresco e cheios de sustança, que estes eventos costumam abrir o apetite e os ares do campo também. Assim no cesto, aconchegadinhos, lá íam uma fritata de ervilhas, cenoura e bacon, uma salada fresca de feijão frade,  rúcula e mais umas coisitas. E para sobremesa as queijadas, claro.







E o que dizer das queijadas de Pereira?
Sabe-se que D. Manuel I em 1513 fez  público que se encantava por elas e que  Josefa D´óbidos as pintou. Têm sete pregas ou "bicos", são criadas manualmente e são cozidas em forno a lenha. Porém o desenvolvimento da produção só veio mais tarde, em 1748 com a fundação do "Real Colégio das Ursulinas", onde as meninas aprendiam entre outras coisas a fazer as queijadas, os papos de anjo e as barrigas de freira. A divulgação e preservação deste doce tem estado a cargo do Grupo folclórico de Vila Pereira, que nos últimos 17 anos tem vindo a organizar a festa da queijada, com um verdadeiro carinho pelas tradições e por quem delas se ocupa. Este ano a festa serviu também para comemorar o 45º aniversário do grupo.
A festa da queijada começou às 9h00 com a feira e às 10h30 quando finalmente chegámos, lá estavam as bancas coloridas de tudo quanto é possível imaginar nestes mercados a céu aberto. Fizemos o percurso para lá e depois para cá, e só voltámos a parar no Celeiro dos Duques de Aveiro, onde à porta estavam 2 ou 3 bancas de venda de queijadas.


























Numa delas, um prato cheio de doces  saltou-me à vista. Ali estavam elas, as genuínas, ao vivo e a cores,
amarelinhas e apetitosas como só elas. Ao lado vários embrulhos típicos com o nome Maria de Lurdes Oliveira, uma das 4 marcas de referência das queijadas de Pereira. As outras 3 são, Tojal, Coventual e Queijadinha. Tirei algumas fotos com a permissão da senhora que me atendeu e sem perder mais tempo, comprei a minha primeira remessa de queijadas. E foi assim, orgulhosamente de saquinho de papel em punho que entrei no Celeiro. Lá dentro, no bar e tasquinha podia-se petiscar e beber um copo mas  o que eu mais gostei foi de ver o forno a lenha em miniatura, com os ingredientes das queijadas  ao lado. Um mise en place rústico e bem português, disposto em pratos de barro. Mais fotos e depois de resistir à tentação de meter o dedo no requeijão e no açúcar, lá saí do celeiro.











E claro, com tanto doce a tolher-me a razão, o que estava a fazer falta era mesmo um cafezinho para curar a ressaca visual, sim que por esta altura ainda eu não tinha provado nem uma queijada. Aquilo era só de vê-las, só de vê-las! É que há coisas na vida que devem ser apreciadas calmamente, quase em reclusão, longe dos olhares alheios, para que nada da experiência se perca. Bem, mas voltando ao cafezinho, acabamos por tomá-lo na bonita esplanada do Queijadinha, outra das marcas de referência das queijadas de Pereira.







E com o sol a queimar, lá entramos de novo no carro rumo à Reserva Natural  Paul de Arzila. Almoçamos numa zona de merendas perto da reserva. Um pedaço de campo coberto por eucaliptos, um pouco desleixado mas com uma vista bonita sobre a reserva. Enfim, não se pode ter tudo. E tirando os gafanhotos que com o calor começam a aparecer em força, até se esteve bem de volta da mesa improvisada. Os miudos até jogaram à bola, já que ali só estávamos nós. E no fim ainda me restavam as queijadas, finalmente as queijadas. E as queijadas de Pereira comem-se quase como as cerejas. O recheio tem a textura deliciosa dos doces de requeijão mas é diferente, não é tão doce como outros doces conventuais e é este conjunto do recheio suave e ao mesmo tempo rico e da massa fina TÃO BOM, que faz com que estas queijadas se comam tão bem, uma a seguir à outra. Aliás, dizem que estes doces devem ser comidos "casados" que é o mesmo que dizer aos pares. Mas um a um são bons na mesma, e sempre duram mais...ou se calhar não!






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10 comentários:

Cinha disse...

Que delícia de post!
Por momentos divaguei até Pereira e comi uma queijada dessas que diga-se devem ser magnificas!
Beijinhos grandes.

Fa disse...

Adorei o post e as fotografias. As queijadas têm um ar excelente.
bjs

SML disse...

Tantos anos que vivi em Coimbra, com Pereira quase ali ao lado e nunca fui à Festa da Queijada. SHAME ON ME! :(
Agora fiquei cheia de saudades da minha terra e arredores e com água a crescer na boca.
Mais uma vez as fotos e descrições são absolutamente maravilhosas.
Sandra

Marmita disse...

Este post n podia deixar mais água na boca.. Adorei tudinho.. beijo e obrigada pela partinha, Marmita

Ana e São disse...

Eu moro em Coimbra e estas queijadas são uma perdição!Parabéns pela reportagem.

familia antunes disse...

Com um fim de semana assim tão bem passado lá recarregaste baterias para mais uma semana de trabalho...
São momentos assim em família que nos vão enchendo a vida...
Obrigado pela partilha...
Beijinhos e boa semana....

Babette disse...

Que maravilha de post e de de fim-de-semana!
beijo
Babette

Ana Rita disse...

Que bela história por detras de uma queijada!!

São uns doces bonitos e decerteza deliciosos!

Bjoka
Rita

Ana Powell disse...

Tremendo post e fotos ♥

sílvia disse...

muito bonito. Tudo!

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