segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pão de pera e coco # Coconut pear bread




Perco facilmente a noção do tempo quando o assunto que tenho em mãos é fazer pão. Há algo de transcendente  no misturar da farinha com a água, o sal, o açúcar e o fermento. O ritual de amassar que tem milénios de história. O pão que os egípcios ensinaram os gregos a fazer e que estes acreditavam ser de origem divina.

No Gerês há uma aldeia que fica na encosta de um monte a uns 700 mts de altitude. Um lugar onde o tempo é outro e as pessoas também. Um lugar onde ainda se faz o pão "como Deus manda".

Foi na velha casa da D. Maria, de granito centenário e traves de madeira escurecida pelo fumo do fumeiro, que serve de arrecadação para os cereais, batatas e animais que eu vi pela primeira vez um forno de pedra pronto para receber a massa benzida. Estava branco por dentro, sinal de que atingira a temperatura certa para cozer o pão, o que demora entre uma a duas horas, sempre a consumir lenha. Agora, na velha casa já existe um moinho para transformar os cereais em farinha, mas anos antes, os poucos habitantes da aldeia revezavam-se no uso do moinho de granito que fica a várias centenas de metros de distância, bem no fundo da aldeia. O caminho íngreme até lá, também nós o fizemos várias vezes, saltando de pedra em pedra, evitando os tapetes de musgo fino que ao menor descuido nos fazem estatelar no chão. A única diferença é que não levávamos à cabeça quilos de grãos de cereais para moer. Fiz esse caminho muitas vezes, algumas delas no Inverno quando os lameiros e a mata nos confins da aldeia se tornam sombrios e lúgrubes e a névoa húmida envolve cada passo que damos. E enquanto caminhava, tentava imaginar o sacrifício e a solidão que a tarefa da moagem exigia nesses tempos passados mas ainda muito presentes na memória de quem os viveu.

Hoje temos um Pão Quente a cada virar de esquina e nem nos damos conta do luxo que é poder apontar o dedo  à variedade exposta e enfrentar o dilema da escolha. Pão de sementes? Pão de passas? Pão nórdico, integral, de cevada ou de centeio? O pão nosso de cada dia deixou de ser sagrado mas ainda há esperança.

M. F. K. Fisher escreveu -  "There is communion of more than our bodies when bread is broken and wine drunk" que traduzindo significa -  " Há mais do que a comunhão dos nossos corpos quando o pão é partido e o vinho bebido."

Ainda faço o meu pão, não de todos os dias, afinal de contas na minha horta não crescem cereais e no fundo da minha "aldeia" em vez de um moinho há um pão quente, estrategicamente situado e pelo qual dou graças todos os dias. Mas ainda assim faço o meu pão. E de cada vez que o faço, seja para lhe dar a forma de uma pizza ou de um pão recheado de pera, açúcar e coco, entro em comunhão com a transcendência do ritual em si. Como se todo o sentimento posto desde há milénios em cada pedaço de massa, se materializasse no cheiro de um  pão caseiro que tiro cuidadosamente do forno, como se fosse uma oferenda sagrada.


In English

I easily loose track of time when I´m making bread. There is something transcendent about mixing flour, water, salt, sugar and yeast. The kneading ritual that has thousands of years. The bread Egyptians taught Greeks to make and that they believed to be of divine origin.

In Gerês there´s a small village that lies on the slopes of a hill, 700 mts high. A place where time is different and people too. A place where bread is still made "as God commands".

It was at the old house of D. Maria, made of centenary granite and wooden beams darkened by the smoke from the smokehouse, which serves as a storage for grains, potatoes and animals, that I first saw a stone oven ready to receive the blessed dough. It was white on the inside, a sign that has reached the right temperature to bake the bread, which takes about one to two hours of wood burning. Now in the old house, already exists a  mill to turn grains into flour, but years before, the few villagers took turns using the old granite mill which is several hundreds meters down in the village. We walked the steep path down there several times, jumping from stone to stone, avoiding the thin carpet of moss, that at the slightest disregard would make us fall on the ground. The only difference is that we didn´t carry pounds of grains to mill on top of our heads. I´ve walked this path many times, some of them during Winter, when the meadows and the woods down in the village become gloomy, dark and damp and the mist surrounds every step we take. Has I walked I imagined the sacrifice and loneliness that the task of grinding demanded in those past times, that are still very fresh in the memories of those who lived them.

Today we have a bakery at every turn of the corner (and thank god for that!) and we are not aware of the luxury that is to be able to point our finger to the exposed variety and face the dilemma of choosing. Seed bread? Raisin bread? Nordic, whole, barley or rye? Our daily bread is no longer sacred, but there is still hope.

M. F. K. Fisher wrote -  "There is communion of more than our bodies when bread is broken and wine drunk"

I still make my own bread, not all days, after all my kitchen garden doesn´t grow cereal grains and down in my "village" instead of a mill I have a bakery, strategically placed and for which I give my thanks everyday. But still I make my own bread. And every time I make it, whether to give it the shape of a pizza or the shape of a pear, coconut sweet bread, I enter in communion with the transcendence of the ritual itself, just as if all the feeling put in each piece of dough for millennia, had materialized in the scent of my homemade bread that I take from the oven carefully, as if it were a sacred offering.









Pão de pera e coco


Ingredientes:
Usei metade da quantidade de massa que usei na última receita que publiquei (pizza) que dá para 1 pão doce.

Recheio:
4 colheres de sopa de açúcar mascavado claro
4 colheres de sopa de coco ralado
2 peras médias, maduras mas firmes, cortadas em fatias finas
Para pincelar:
3 colheres de sopa de leite misturado com 1 colher de café de canela
Geleia de maça ou marmelo para pincelar
Amêndoa laminada para salpicar
Açúcar em pó para polvilhar (opcional)

Preparação:
*Para fazer a massa, siga as instruções da receita publicada anteriormente mas divida a quantidade dos ingredientes. Ou se preferir, faça o mesmo que eu fiz. Faça a pizza e aproveite o calor do forno e rapidamente recheie e enrole este pão e coza-o a seguir.
*Pré-aqueça o forno a 190º, marca 5 do fogão a gás.
*Estenda a massa, numa superfície bem enfarinhada, em forma quadrada mas não muito fina para não romper quando for enrolada.
* Cubra a massa com o açúcar, depois com a pera e de seguida com o coco, tendo o cuidado de deixar uma borda a toda a volta da massa.
* Enrole cuidadosamente. Se a massa romper, volte a uni-la com a ponta dos dedos.
*Dobre as extremidades do pão várias vezes até ficar selado.
*Pincele toda a superfície do pão com a mistura de leite e canela e deixe descansar 10 minutos.
*Leve ao forno em tabuleiro forrado com papel vegetal por 20 minutos, até ficar dourado.
*Depois de sair do forno pincele com a geleia e salpique com a amêndoa que entretanto foi levemente tostada numa sertã.
* Deixe arrefecer e polvilhe com açúcar em pó (opcional).









Pear coconut bread




Ingredients:
 Use half the quantity of dough i´ve used for the last recipe i published (pizza) which is enough for 1 bread.

Filling:
4 tbs light muscovado sugar
4 tbs dried shredded coconut
2 medium pears ripe but firm, finely sliced
For brushing:
3 tbs milk mix with 1/2 tsp cinnamon
Apricot jam
Sliced almonds
Icing sugar for dusting (opcional)

Preparation:
* To make the dough follow the instructions for the pizza (previous recipe) but use only half of the recipe. You can also do as I did, make the pizza and then the bread with the other half of the dough in the same day.
*Preheat the oven to 190º, 375f, gas mark 5.
*Roll  the dough in a floured surface into a square but not to thin or it will break when you roll it up with the filling.
*Cover the square of dough first with the sugar, then with the pears and finally with the coconut, leaving a border all around the dough.
*Roll the dough carefully. If it breaks, seal it with your fingertips.
*Roll the edges of the bread to seal them and then brush the entire surface with the milk and cinnamon mixture and let it rest for 10 minutes.
*Put the bread on a tin lined with parchment paper and bake for 20 minutes or so, until golden.
*Remove for the oven and when is still hot, brush  with the apricot jam.
*Cover with some toasted sliced almonds and dust with icing sugar (icing sugar is optional) .



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11 comentários:

Pacas disse...

Este pão deu-me água na boca. Até já, vou ali ao lado fazer um pão :)

Su disse...

Fiquei literalmente a babar quer pelo pão quer pelas fotos deliciosas :D:D

Sanda Vuckovic Pagaimo disse...

Adorei!!

Sandra Batista disse...

Muito, muito bom...o pão ficou 5***** e as fotos lindísimas!
Beijinhos

Ondina Maria disse...

Estou aqui no gabinete e imagino o perfume que se estendeu pela casa enquanto o pão cozia, conquistando cada recanto e convidando os habitantes para uma fatia morna e saborosa, acompanhada por um chá quente ou um copo de leite morno aromatizado com canela...
E queria estar aí, para uma fatia e uns dedos de conversa. E uma ida ao Gerês :)

Bombom disse...

Olá Mónica! Obrigada pelo teu sagrado Pão de Pêras e Côco! Obrigada pelo magnífico texto com que nos brindaste. Senti cada palavra no corpo e na alma, como quem come até as migalhinhas sobrantes desse belo pão quente e cheiroso, acabado de sair do forno.
E vieram-me as lágrimas aos olhos ao pensar como antigamente, sendo tudo tão sofrido nas nossas aldeias, as pessoas eram tão felizes e alegres. Hoje com tanta tecnologia e melhorias na vida diária, as gentes da minha aldeia estão cada vez mais isoladas e sozinhas, e já nem fazem pão. E lá está o forno comunitário, a lembrar-nos esses tempos outros, que não voltam mais...
Bjs. Bombom

Sofia Marques disse...

Parece um pão enviado por deuses ;)
Que aspecto maravilhoso! Parabéns!!

Marmita disse...

Adoro o cenário das tuas fotos, ficam uma "coisa" fabulosa... muitos parabéns pelo resultado!

Pammy Sami disse...

Mónica, concordo plenamente. O acto sagrado do cosumo do pão, e todos os alimentos em geral está tão banalizado,simplificado que as pessoas passaram a ignorar toda a sua história, a importancia o esforço que era implicado em tempos de outrora, para que não faltasse que comer... Até o simples acto de agradecer sob a forma de uma oração, ou de umas palavras sentidas antes das refeições será um bom começo para relembrar-mos o seu valor...
O teu pão ficou uma tentação!
Boa semana*

Moira disse...

Partilho todos os teus sentimentos em relação ao pão, e apesar de não ser uma grande apreciadora de coco, esse pão ficou tentador.
Fazer pão continua a exercer em mim uma espécie de magia inexplicável, que só conhece quem mete as mãos na massa e respeita cada um dos tempos necessários para um pão cujo sabor nos alimenta a alma :)
Beijinhos
Manuela

Beglaubigte Übersetzung disse...

What a great idea! Thanks for this, yummm...

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